Do monitoramento à prevenção: como a IA da Dahua está transformando as estradas
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July 16, 2026

Entre a segurança no trânsito e a cautela com a tecnologia, uso de IA para aplicar multas avança pelo país.
Levantamento da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) aponta que 90% dos acidentes envolvem algum elemento de desatenção, entre eles o manuseio de celulares
Disseminada no
cotidiano da população, a inteligência artificial (IA) tem se tornado um
recurso cada vez mais presente na fiscalização de trânsito pelo Brasil. Usada
sobretudo para flagrar irregularidades como a falta do cinto de segurança e o
uso do celular ao volante, tornando-se aliada importante na prevenção de
acidentes, a tecnologia também desperta cautela, que passa pela necessidade de
supervisão humana para sacramentar as multas e o tratamento de dados conferido
às imagens de motoristas. Já são pelo menos sete estados em que a ferramenta é
utilizada ou está em fase de implementação na detecção de infrações.
A aplicação
mais recente é nos trechos Sul e Leste do Rodoanel Mário Covas, um dos pontos
de maior fluxo na Região Metropolitana de São Paulo, onde desde o início do mês
condutores estão sendo autuados graças à IA. Antes, durante 49 dias de testes
entre maio e junho, os equipamentos identificaram 7.297 veículos em situação
irregular, uma média diária de 149 casos.
Segundo a SPMar, concessionária responsável pelas vias, motoristas sem cinto responderam por 45,7% dos flagrantes (3.335 ocorrências), seguidos pela mesma infração entre passageiros (26,8%, ou 1.956). Também foram detectados 1.369 condutores usando o telefone, 18,8% do total. — O objetivo da concessionária é prevenir acidentes, apoiando a educação do motorista para que ele pense na vida antes de abrir um celular durante a condução do veículo — afirma Andrew Aquino, gerente de operações da companhia.
IA identifica motorista e passageiro sem cintos em viagem pelo Rodoanel (SP) — Foto: Divulgação/SPMAR
A distração
figura entre as principais causas de sinistros nas rodovias. Levantamento da
Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) aponta que 90% dos
acidentes envolvem algum elemento de desatenção, entre eles o manuseio de
celulares.
Frações de
segundos de perda de atenção podem significar a diferença entre a vida e a
morte, e esse tipo de tecnologia tem um potencial enorme para reduzir as
ocorrências — opina Rodolfo Rizzotto, especialista em trânsito e coordenador do
SOS Estradas. — A experiência vem ocorrendo em vários países, que registraram
uma redução do número de infrações, porque a partir do momento em que as
pessoas passam a ser fiscalizadas, percebem que podem ser autuadas e punidas,
então mudam o comportamento.
No Rodoanel,
sensores infravermelhos e algoritmos agora operam 24h por dia, reconhecendo o
aparelho nas mãos do condutor ou a ausência do cinto, tanto do motorista quanto
do passageiro dianteiro. Cada ocorrência gera registro com data, horário e
local, encaminhado à Polícia Militar Rodoviária, responsável pela validação
final antes da penalidade. O sistema também mapeia veículos parados no
acostamento, caminhões em faixas restritas e focos de fumaça. A concessionária
pretende estender o recurso às 120 câmeras do trecho até 2027, de forma
gradual.
Os dados da
rodovia nos mostram o comportamento habitual dos motoristas. Com a tecnologia,
ganhamos agilidade para detectar e influenciar esse comportamento, aumentando a
segurança do próprio condutor — explica Thiago Cavalcante, gerente de Inovação
e Tecnologia da SPMar.
Na Raposo
Tavares, que liga a capital paulista ao interior, duas câmeras operam de forma
contínua e registraram, em apenas três dias, mais de 700 motoristas com o
celular em mãos, de acordo com a Ecovias. A meta é pelo menos dobrar os
equipamentos nos próximos meses, estendendo a cobertura para trechos da Rodovia
Presidente Castello Branco.
Já a Motiva,
antiga CCR, diz que todas as rodovias administradas hoje em São Paulo contam
com um sistema de monitoramento com IA para “detecção de ocorrências” e que na
Rodovia Governador Adhemar de Barros, entre Campinas e Mogi Mirim, o sistema
registrou 16.147 infrações de trânsito ao longo do ano passado, a maioria por
falta de cinto. Também há registros do emprego do recurso, em diferentes
níveis, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Espírito Santo e na
Paraíba.
Comportamentos anômalos
Na Ecovias
Cerrado (BR-364 e BR-365) e na Ecovias Minas-Goiás (BR-050), que ligam trechos
entre os dois estados, o grupo adotou câmeras com processamento de imagens
embarcados nos próprios dispositivos, que são fabricados pela empresa chinesa
Dahua Technology. O algoritmo realiza uma “varredura” constante para
identificar o que chamam de “comportamentos anômalos” — ou seja, situações que
violam o código de trânsito.
Nesses trechos
operados pela Ecovias, foram identificadas 2.505 irregularidades com uso de IA
no primeiro semestre deste ano, crescimento de aproximadamente 10% (2.279) em
relação ao mesmo período de 2025. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) realizou
258 operações de fiscalização por videomonitoramento, mais que o dobro das 111
operações registradas no mesmo período de 2025. Houve redução de 3% a 4% nos
óbitos.
Inteligência artificial nas estradas — Foto: Arte O Globo
Assim como no teste em SP, na maioria das vezes, nesses locais, a IA detecta
motoristas e passageiros sem o cinto ou motoristas ao celular. No entanto, a
concessionária já flagrou, por exemplo, um caso em que uma criança era
transportada no colo do passageiro, o que é proibido.
Os equipamentos
da Dahua têm resolução de 4.096x2.820, maior do que a do 4K de TVs domésticas,
o que permite zoom e detalhamento das imagens. Elas também operam com sensores
infravermelhos para detecção noturna ou de situações de baixa luminosidade.
A IA, contudo,
não aplica multas de forma automática, o que descumpriria uma obrigatoriedade
normativa e do Código de Trânsito para que a autuação ocorra em tempo real.
Assim, as câmeras enviam notificações, que também precisam ser analisadas
imediatamente pelos agentes responsáveis. Não é possível, por exemplo, executar
autuações a partir de registros de dias anteriores.
Ainda assim,
uma das preocupações é justamente o possível armazenamento dessas imagens.
Especialista em privacidade e proteção de dados, Fernando Manfrin destaca que a
câmera pode servir para flagrar uma infração de trânsito, mas não para vigiar a
rotina de quem dirige. Por isso, a utilização da tecnologia deve observar a Lei
Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), com controle de acesso, sigilo,
rastreabilidade e tratamento adequado das informações.
A imagem do
interior do veículo revela um espaço íntimo, onde podem aparecer diversos
conteúdos pessoais e, dependendo do conteúdo registrado, até dados sensíveis —
pontua Manfrin, alertando também para a possibilidade de erros de leitura. — Há
um risco sério se a tecnologia evoluir de detectar comportamento para
identificar rosto.
No caso da
Dahua, as câmeras são treinadas com um banco de dados da companhia, que tem
presença em diferentes países — o algoritmo, portanto, não é aperfeiçoado
especificamente com informações de brasileiros. Gerente-comercial de
Infraestrutura da empresa, Carlos Carvalho pondera, no entanto, que as imagens
de rodovias nacionais podem ser utilizadas com esse fim em situações
específicas:
Se a
concessionária notar muitos “falsos positivos” em uma câmera, podemos pedir
imagens daquele local para o algoritmo ser adaptado. Mas o padrão é não
armazenar e processar imagens de forma massiva.
Professor da
Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e especialista em visão
computacional, Diego Bruno explica que algoritmos de detecção de imagens não
são complexos, mas dependem de um bom banco de dados para que a máquina faça
apontamentos corretos:
Primeiro, o
algoritmo detecta o tipo do objeto. Trata-se de uma moto ou de um carro?
Afinal, ele não pode gerar alerta de um motoqueiro que está sem o cinto. Como
no trânsito tem um monte de tipo de veículo e situações, você vai precisar de
umas 50 mil imagens pra um sistema ser bem treinado.
Custo mensal
Segundo Marcio
Vono, coordenador de operações da Ecovias Raposo Castello, o custo de
instalação por câmera, incluindo o software, fica entre R$ 100 mil e R$ 150
mil, mais um valor mensal destinado à manutenção do sistema. A iniciativa é das
próprias concessionárias, mas alinhadas com as agências reguladoras, para
identificar os melhores locais, e com os fiscais, a quem cabe produzir os autos
de infração a partir dos incidentes.
Representantes
de empresas do ramo contam que recebem propostas de companhias especializadas
sob a promessa de prevenir acidentes, uma vez que cada ocorrência evitada
representa menos mobilização de equipes de salvamento e controle de tráfego,
além da redução da chances de danos estruturais na pista — em outras palavras,
economia. A expectativa é que gradualmente a tecnologia passe a constar nas
exigências de contratos novos, a partir do momento em que o sistema comprovar
bons resultados, pela leitura do mercado.
Chegar ao
ponto de colocar a tecnologia é crítico, mas necessário. Fico perplexo, em se
tratando de rodovia, com a quantidade de pessoas que deixam de usar o cinto de
segurança — reforça Vono.
Experiências
inovadoras com a IA já foram registradas em países como Estados Unidos,
Holanda, China, Índia, Emirados Árabes e Austrália. A ilha-continente implantou
o método numa rodovia-piloto ainda em 2019, com um equipamento móvel que tirava
fotos, analisadas depois pela inteligência artificial e pelos fiscais em
conjunto. Em dois anos, o percentual de motoristas flagrados usando celulares
caiu de 1% para 0,2%, conforme o divulgado à época.
No Brasil, o estímulo parte principalmente das concessionárias, mas a Polícia
Rodoviária Federal (PRF) demonstrou interesse em ampliar esse escopo de
atuação. Em março último, o órgão público anunciou edital em que pede doações
de sistemas do tipo “para uso em testes em campo por até 180 dias contínuos”.
Os
equipamentos, segundo a PRF, deveriam ser capazes de reconhecer placas,
analisar o comportamento dos condutores, emitir alertas automáticos em tempo
real e produzir relatórios, como o volume médio de veículos. “Todos os
registros enviados para a central serão validados por um policial rodoviário,
que tomará as medidas administrativas cabíveis, quando necessário”, aponta o
documento.
Procurada pelo
GLOBO, a corporação informou que a instalação ainda não foi iniciada, mas
sinalizou que houve interesse no mercado. “Atualmente, estão em andamento
tratativas técnicas e operacionais com as empresas participantes, voltadas à
definição dos pontos de instalação e à validação dos requisitos necessários à
implantação das soluções”, afirmou em nota.
Por Bruno Romani, Esther Gama, Filipe
Vidon e Samuel Lima — São Paulo
Link matéria completa: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/07/11/entre-a-seguranca-no-transito-e-a-cautela-com-a-tecnologia-uso-de-ia-para-aplicar-multas-avanca-pelo-pais.ghtml
Foto capa: Divulgação/SPMAR
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